sexta-feira, 19 de outubro de 2018

O Imprevisto me Fascina...


Está fazendo um dia lindo de outono.
A praia estava cheia de um vento bom,
de uma liberdade.
E eu estava só.
E naqueles momentos não precisava de ninguém.
Preciso aprender a não precisar de ninguém.
É difícil, porque preciso repartir com alguém o que sinto.
O mar estava calmo. Eu também.
Mas à espreita, em suspeita.
Como se essa calma não pudesse durar.
Algo está sempre por acontecer.
O imprevisto me fascina.

Clarice Lispector

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Da Observação

Da Observação

Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e subtil recreio...

Mario Quintana

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Bilhete de Mario Quintana

Bilhete

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o Amor mais breve ainda...

Mario Quintana

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Poema de Florbela Espanca


Ruínas

Se é sempre Outono o rir das primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair...
Que a vida é um constante derruir
De palácios do Reino das Quimeras!
E deixa sobre as ruínas crescer heras.
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida é um contínuo destruir
De palácios do Reino de Quimeras!
Deixa tombar meus rútilos castelos!
Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
Mais altos do que as águias pelo ar!
Sonhos que tombam! Derrocada louca!
São como os beijos duma linda boca!
Sonhos!... Deixa-os tombar... deixa-os tombar...

Florbela Espanca

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Nostalgia de Florbela Espanca

Nostalgia

Nesse País de Lenda, que me encanta,
Ficaram meus brocados, que despi,
E as jóias que p’las aias reparti
Como outras rosas de Rainha Santa!
Tanta opala que eu tinha! Tanta, tanta!
Foi por lá que as semeei e que as perdi...
Mostrem-se esse País onde eu nasci!
Mostrem-me o Reino de que eu sou Infanta!
Ó meu País de Sonho e de Ansiedade,
Não sei se esta quimera que me assombra,
É feita de Mentira ou de Verdade!
Quero voltar! Não sei por onde vim...
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!

Florbela Espanca

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Poema-A Um Livro

A Um Livro

No Silêncio de cinzas do meu Ser
Agita-se uma sombra de Cipreste,
Sombra roubada ao Livro que ando a ler,
A esse Livro de mágoas que me deste.
Estranho Livro aquele que escreveste,
Artista da Saudade e do sofrer
Estranho livro aquele em que puseste
Tudo o que sinto, sem poder dizer!
Leio-o, e folheio, assim, toda a minh’alma!
O Livro que me deste é meu, e salma
As orações que choro e rio e canto! ...
Poeta igual a mim, ai quem me dera
Dizer o que tu dizes! ... Quem soubera
Velar a minha Dor desse teu manto! ...

Florbela Espanca

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Poema Canção de Outono


Canção de Outono

Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão
se havia gente dormindo
sobre o próprio coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando aqueles
que não se levantarão...

Tu és folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...

Cecília Meireles